
Von der Leyen propôs o Canadá como primeiro membro associado da UE — categoria que não existe nos tratados. Carney se levantou e a abraçou no Parlamento Europeu.
Von der Leyen propôs o Canadá como primeiro membro associado da UE durante o seu discurso sobre o Estado da União — com Carney presente na plateia. Os parlamentares europeus deram ovação de pé. “Membro associado” não existe nos tratados europeus. A UE está inventando uma nova categoria — em tempo realFoto: Imagem gerada por IA/ND MaisCarney disse mais cedo esta semana que o Canadá buscava uma “aliança única” com a UE, mas não adesão plena. A proposta de Von der Leyen vai além do que Ottawa havia pedido publicamente — mas não muito além do que estava sendo discutido nos bastidores.
“Definiremos juntos” — é a linguagem diplomática para “ainda não sabemos o que isso significa.”
Von der Leyen disse que a UE e o Canadá trabalhariam juntos em setores que vão da manufatura à IA, passando por minerais críticos e energia.Os setores não são escolhidos ao acaso: são exatamente as áreas em que Europa e Canadá têm interesses complementares e em que dependem menos dos EUA do que gostariam.O Canadá tem as maiores reservas de minerais críticos do mundo ocidental — lítio, cobalto, níquel, terras raras. A Europa precisa desses minerais para sua transição energética e para não depender da China.
É parte de uma série de movimentos que a UE vem fazendo desde que ficou claro que a administração Trump representa uma ruptura estrutural — não apenas uma turbulência passageira — nas relações transatlânticas.
Em maio de 2026, o acordo Mercosul-UE entrou em vigência provisória após décadas de negociação — numa sinalização de que o bloco europeu estava diversificando parcerias comerciais ativamente.Em junho, o presidente finlandês Stubb propôs ampliar a UE para 40 membros, mencionando Canadá, Reino Unido, Turquia, Noruega e Islândia. Em setembro, Von der Leyen concretiza parte dessa visão convidando o Canadá.A proposta também sugere um caminho para o Reino Unido recosturar seus laços com a UE — embora com o Canadá à frente em termos de estabelecer o que a adesão associada vai implicar. O Brexit foi o maior trauma institucional da UE em décadas.
Se a categoria de “membro associado” se concretizar, o Reino Unido — que nunca aceitou plena re-adesão mas que sob o governo Burnham está mais próximo da Europa do que esteve em anos — tem um caminho de aproximação que não exige reverter o referendo de 2016.Trump passou 2025 e 2026 tentando redefinir o Ocidente nos seus próprios termos — tarifas universais, Doutrina Monroe, ameaças ao Canadá e à Groenlândia, pressão sobre aliados da OTAN para pagarem mais. A estratégia era de contração: menos multilateralismo, mais bilateralismo americano.
O resultado foi o oposto. A Europa se armou. O Canadá se voltou para a Europa. A Islândia votou sobre a UE. A Austrália e o Japão aprofundaram laços bilaterais. A Índia diversificou parcerias. E agora a UE está inventando uma nova categoria de adesão para absorver um país do continente americano.Trump está reconstruindo o Ocidente sem querer — simplesmente que o Ocidente que está emergindo não tem Washington no centro.O Brasil não é candidato a membro associado da UE — e provavelmente nunca será, dado que os tratados europeus exigem países europeus. Mas a proposta do Canadá tem implicações indiretas para o Brasil em pelo menos dois sentidos.
O primeiro é comercial. Com o Acordo Mercosul-UE em vigência provisória, o Brasil tem acesso preferencial ao mercado europeu — o mesmo mercado que o Canadá já acessava pelo CETA, seu próprio acordo de livre comércio com a UE.Se o Canadá aprofundar ainda mais esse acesso como “membro associado”, os exportadores brasileiros competirão com exportadores canadenses em condições eventualmente desiguais para alguns produtos.O segundo é geopolítico. A UE que está se reinventando em torno de novos parceiros — Canadá, potencialmente Reino Unido, minerais críticos, IA — é uma UE que está definindo uma agenda de prioridades.
O Brasil que quer ter papel nessa nova arquitetura precisa ser relevante para essa agenda: como fornecedor de minerais críticos, como parceiro de transição energética, como mercado consumidor crescente.A cena do Parlamento Europeu em Estrasburgo na quarta-feira foi mais do que um gesto diplomático entre Von der Leyen e Carney. Foi a visualização de um reordenamento que está acontecendo enquanto o mundo está olhando para outro lado — para guerras, eleições e escândalos.A Europa está redesenhando suas fronteiras. Não geograficamente, mas politicamente. E o mapa que está emergindo tem menos América do Norte do lado americano do que qualquer analista teria previsto dois anos atrás.Análises sobre geopolítica e economia global aplicadas ao mercado internacional. João Alfredo Nyegray traduz o cenário mundial para a tomada de decisão rea









