
Confesso que pensei em quem perde tudo de verdade, numa enchente, num incêndio, e fica sem casa, sem retrato, sem nada físico que prove a própria trajetória. Não é a mesma dor, longe disso, e não quero comparar o que não tem comparação. Mas esse susto me aproximou, por um instante, desse vazio de quem perde o chão de vez. Parece exagero, mas por incrível que pareça é uma perda irreparável.
Talvez a parte mais difícil seja perceber o quanto terceirizamos nossa memória. Guardamos momentos na nuvem, aniversários no calendário, contatos no telefone, fotos no rolo da câmera e histórias inteiras em aplicativos que parecem eternos, até o dia em que deixam de ser. A tecnologia nos deu a sensação confortável de que nada mais precisa ser lembrado, porque tudo pode ser recuperado. Até que um dia você descobre, da pior maneira, que algumas coisas não estavam guardadas. Estavam apenas adiadas.E aqui vem o ponto que mais me interessa. O que está perdido, está perdido. Não adianta espernear, xingar o aplicativo, chorar pelas fotos que não voltam. Isso é fato consumado, e fato consumado não se negocia. O que está em jogo agora não é o que sumiu. É o que eu faço com essa ausência. O luto pelo WhatsApp, afinal, não é sobre o aplicativo. É sobre aquilo que ele carregava.Não é otimismo ingênuo. É decisão. É entender que o passado que se foi não some do que fui, some só do arquivo. E que o futuro, esse, ainda está em branco, esperando que eu escreva com as próprias mãos, sem depender de nuvem, backup ou senha que ninguém lembra mais.
O luto pelo WhatsApp também nos lembra que nem tudo o que importa precisa estar arquivado para continuar existindo. Você já se perguntou se o seu histórico sumisse hoje, você ia passar o tempo chorando pelo que perdeu, ou ia aproveitar a página em branco para escrever de novo uma nova história?Por Elisa FernandezMergulhe nas reflexões de Elisa Fernandez, que traz uma perspectiva inspiradora e envolvente a relatos sobre maturidade, cotidiano, relacionamentos e carreira.









