O governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e CV em documento oficial enviado ao Congresso americano. A designação das facções como terroristas em maio já havia aberto brecha legal para ação americana em solo brasileiro — sem necessariamente pedir permissão ao governo localFoto: Imagem gerada por IA/ND MaisPara entender o peso do que foi publicado hoje, é preciso recuar alguns meses.
E antes disso, em março, o governo brasileiro havia rejeitado formalmente o pedido americano de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.
O que a designação terrorista realmente abre
Aqui está o elemento que mais preocupa juristas e autoridades brasileiras — e que a maioria das coberturas está deixando de lado.
Em tese, abriu-se brecha para que agentes dos EUA, sejam membros das Forças Armadas ou de órgãos de inteligência como a CIA, pudessem atuar diretamente.
Essa última frase merece atenção específica. “Atuar diretamente” — mesmo que “em tese” — sobre território brasileiro é uma afirmação de capacidade que, combinada com a acusação formal de “falha” do governo brasileiro, cria uma estrutura retórica e legal para intervenção que não existia antes.As autoridades brasileiras foram contra a designação e reagiram ao anúncio da medida, sob o argumento de risco à segurança nacional.O argumento brasileiro é preciso: quando uma potência estrangeira classifica organizações ativas em seu território como terroristas e abre brecha para “medidas operacionais”, está afirmando o direito de agir nesse território independentemente da vontade do governo local.
A Doutrina Monroe aplicada ao crime organizado
Escrevemos aqui em agosto sobre o vídeo do Departamento de Estado americano declarando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado.” Escrevemos sobre o plano de Rubio para as eleições brasileiras de outubro. Escrevemos sobre a Doutrina Monroe como framework explícito da política de Trump para a América Latina.O documento desta quarta-feira é mais um capítulo do mesmo livro. A acusação de que o Brasil “falhou” contra o PCC e o CV contrasta deliberadamente o país com outros governos hemisféricos que estão “tomando medidas corajosas”.
A menção ao Brasil representa uma mudança em relação à determinação presidencial publicada um ano antes. No documento de 2025, o país não era citado. A Casa Branca concentrava suas críticas a países como México, China, Colômbia e Venezuela.A adição do Brasil à lista de repreendidos — sem colocá-lo formalmente na lista de países “que falharam demonstravelmente”, mas com linguagem que equivale a isso — é uma posição intermediária deliberada. Suficientemente grave para criar pressão política e narrativa. Insuficientemente grave para acionar mecanismos formais que exigiriam respostas mais complexas.
É pressão calibrada. E a calibragem não é nova — é a mesma que vimos nas tarifas, na Doutrina Monroe e no visto da embaixadora.O que o PCC e o CV de fato representam internacionalmente
A acusação americana tem uma base factual que não pode ser ignorada por nenhuma análise honesta.O PCC é hoje uma das organizações criminosas mais globalizadas do mundo. Com origem nos presídios paulistas nos anos 1990, expandiu-se para mais de 15 países — incluindo Paraguai, Bolívia, Portugal, Espanha e países africanos.
Controla rotas de tráfico de cocaína que conectam produtores andinos a mercados europeus. Tem estrutura financeira sofisticada com operações de lavagem em múltiplas jurisdições.O Comando Vermelho, com base no Rio de Janeiro, tem alcance internacional menor mas igualmente preocupante — com conexões ao tráfico atlântico e presença em Portugal e em países africanos lusófonos.A afirmação de que essas organizações “transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína” tem suporte em dados de apreensões europeias — os maiores portos europeus de entrada de cocaína sul-americana (Rotterdam, Antuérpia, Lisboa) documentam volumes crescentes com origem em portos brasileiros.
O problema não é a afirmação factual. É o que os EUA fazem com ela — e quais instrumentos legais e políticos ela justifica.O que o Brasil tem a responder
O governo brasileiro enfrenta um dilema preciso. Concordar com a narrativa americana — adotando as designações terroristas que Washington quer — representa uma concessão de soberania e cria precedentes sobre quem define o que é terrorismo em território brasileiro.Discordar e resistir — como fez em março — resulta em documentos públicos como o desta quarta-feira, com acusações formais de “falha” enviadas ao Congresso americano, com impacto sobre a percepção internacional do país e sobre as negociações em curso sobre tarifas.
Não há resposta fácil. O crime organizado é um problema real que o Brasil não resolveu. E os EUA estão usando esse problema real como instrumento de pressão política num momento eleitoralmente sensível.As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: o Brasil tem um problema sério com o PCC e o CV — e os EUA estão explorando esse problema para fins que vão além do combate ao crime.Em 18 dias, o Brasil vota. O documento de hoje será parte do debate — seja pelo governo atual respondendo às acusações, seja pela oposição usando-as como argumento.
A Doutrina Monroe de 2026 não se limita a tarifas e reconhecimento diplomático. Chegou agora ao crime organizado — com o vocabulário do terrorismo e as ferramentas legais que esse vocabulário desbloqueia.











