Os EUA disseram que o Brasil falhou no combate ao PCC e CV. O que essa acusação realmente significa

Trump enviou ao Congresso documento acusando o Brasil de falhar contra o PCC e CV — já designados como terroristas em maio. A medida abre brecha para ação americana em solo brasileiro?Nesta quarta-feira, o governo Donald Trump enviou ao Congresso americano um documento anual obrigatório sobre países considerados grandes rotas de trânsito ou produtores de drogas ilícitas.O Brasil não está na lista formal dos 23 países — que inclui México, Colômbia, China, Venezuela e Afeganistão. Mas aparece no documento com uma reprimenda explícita e sem precedente.“Embora muitos governos no Hemisfério Ocidental estejam tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil tem falhado em enfrentar as organizações terroristas estrangeiras designadas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, que transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína”, declara o documento.É a primeira vez que o Brasil aparece com essa linguagem num relatório anual desta natureza. Em 2025, o documento não citava o país. A mudança não é acidental — é parte de uma escalada calculada que vem se desenvolvendo ao longo do ano.

A linha do tempo que o documento não explica sozinho

Para entender o peso do que foi publicado hoje, é preciso recuar alguns meses.

O governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e CV em documento oficial enviado ao Congresso americano. A designação das facções como terroristas em maio já havia aberto brecha legal para ação americana em solo brasileiro — sem necessariamente pedir permissão ao governo localFoto: Imagem gerada por IA/ND MaisO governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e CV em documento oficial enviado ao Congresso americano. A designação das facções como terroristas em maio já havia aberto brecha legal para ação americana em solo brasileiro — sem necessariamente pedir permissão ao governo localFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Nesta quarta-feira, o governo Donald Trump enviou ao Congresso americano um documento anual obrigatório sobre países considerados grandes rotas de trânsito ou produtores de drogas ilícitas.O Brasil não está na lista formal dos 23 países — que inclui México, Colômbia, China, Venezuela e Afeganistão. Mas aparece no documento com uma reprimenda explícita e sem precedente.“Embora muitos governos no Hemisfério Ocidental estejam tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil tem falhado em enfrentar as organizações terroristas estrangeiras designadas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, que transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína”, declara o documento.

É a primeira vez que o Brasil aparece com essa linguagem num relatório anual desta natureza. Em 2025, o documento não citava o país. A mudança não é acidental — é parte de uma escalada calculada que vem se desenvolvendo ao longo do ano.

A linha do tempo que o documento não explica sozinho

Para entender o peso do que foi publicado hoje, é preciso recuar alguns meses.

Em maio de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio classificou PCC e Comando Vermelho como “Specially Designated Global Terrorists” — terroristas globais especialmente designados. A decisão foi assinada em 28 de maio e publicada no Federal Register no início de junho.Em julho, os EUA foram além: o governo americano anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma empresa portuguesa por suspeita de integrarem um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.

E antes disso, em março, o governo brasileiro havia rejeitado formalmente o pedido americano de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.

Mario Sarrubo, secretário nacional de segurança pública do Brasil, disse à Reuters que o pedido foi feito durante uma reunião entre David Gamble, que lidera a estratégia de sanções do Departamento de Estado, seis outros funcionários do governo Trump e oito autoridades brasileiras em Brasília.O Brasil disse não. Os EUA classificaram mesmo assim — e agora, com o documento desta quarta-feira, colocam o governo brasileiro nominalmente na posição de quem “falhou” perante o Congresso americano.

O que a designação terrorista realmente abre

Aqui está o elemento que mais preocupa juristas e autoridades brasileiras — e que a maioria das coberturas está deixando de lado.Com a mudança na classificação das organizações criminosas em atuação no Brasil, o governo americano passou a poder adotar medidas financeiras e operacionais contra os grupos, restringir a migração de integrantes e aqueles considerados associados, além de ampliar o uso da inteligência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos para o possível combate às facções.

Em tese, abriu-se brecha para que agentes dos EUA, sejam membros das Forças Armadas ou de órgãos de inteligência como a CIA, pudessem atuar diretamente.

Essa última frase merece atenção específica. “Atuar diretamente” — mesmo que “em tese” — sobre território brasileiro é uma afirmação de capacidade que, combinada com a acusação formal de “falha” do governo brasileiro, cria uma estrutura retórica e legal para intervenção que não existia antes.As autoridades brasileiras foram contra a designação e reagiram ao anúncio da medida, sob o argumento de risco à segurança nacional.

O argumento brasileiro é preciso: quando uma potência estrangeira classifica organizações ativas em seu território como terroristas e abre brecha para “medidas operacionais”, está afirmando o direito de agir nesse território independentemente da vontade do governo local.

A Doutrina Monroe aplicada ao crime organizado

Escrevemos aqui em agosto sobre o vídeo do Departamento de Estado americano declarando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado.” Escrevemos sobre o plano de Rubio para as eleições brasileiras de outubro. Escrevemos sobre a Doutrina Monroe como framework explícito da política de Trump para a América Latina.

O documento desta quarta-feira é mais um capítulo do mesmo livro. A acusação de que o Brasil “falhou” contra o PCC e o CV contrasta deliberadamente o país com outros governos hemisféricos que estão “tomando medidas corajosas”.

A menção ao Brasil representa uma mudança em relação à determinação presidencial publicada um ano antes. No documento de 2025, o país não era citado. A Casa Branca concentrava suas críticas a países como México, China, Colômbia e Venezuela.

A adição do Brasil à lista de repreendidos — sem colocá-lo formalmente na lista de países “que falharam demonstravelmente”, mas com linguagem que equivale a isso — é uma posição intermediária deliberada. Suficientemente grave para criar pressão política e narrativa. Insuficientemente grave para acionar mecanismos formais que exigiriam respostas mais complexas.

É pressão calibrada. E a calibragem não é nova — é a mesma que vimos nas tarifas, na Doutrina Monroe e no visto da embaixadora.

O que o PCC e o CV de fato representam internacionalmente

A acusação americana tem uma base factual que não pode ser ignorada por nenhuma análise honesta.

O PCC é hoje uma das organizações criminosas mais globalizadas do mundo. Com origem nos presídios paulistas nos anos 1990, expandiu-se para mais de 15 países — incluindo Paraguai, Bolívia, Portugal, Espanha e países africanos.

Controla rotas de tráfico de cocaína que conectam produtores andinos a mercados europeus. Tem estrutura financeira sofisticada com operações de lavagem em múltiplas jurisdições.O Comando Vermelho, com base no Rio de Janeiro, tem alcance internacional menor mas igualmente preocupante — com conexões ao tráfico atlântico e presença em Portugal e em países africanos lusófonos.

A afirmação de que essas organizações “transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína” tem suporte em dados de apreensões europeias — os maiores portos europeus de entrada de cocaína sul-americana (Rotterdam, Antuérpia, Lisboa) documentam volumes crescentes com origem em portos brasileiros.

O problema não é a afirmação factual. É o que os EUA fazem com ela — e quais instrumentos legais e políticos ela justifica.

O que o Brasil tem a responder

O governo brasileiro enfrenta um dilema preciso. Concordar com a narrativa americana — adotando as designações terroristas que Washington quer — representa uma concessão de soberania e cria precedentes sobre quem define o que é terrorismo em território brasileiro.

Discordar e resistir — como fez em março — resulta em documentos públicos como o desta quarta-feira, com acusações formais de “falha” enviadas ao Congresso americano, com impacto sobre a percepção internacional do país e sobre as negociações em curso sobre tarifas.

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O governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e CV em documento oficial enviado ao Congresso americano. A designação das facções como terroristas em maio já havia aberto brecha legal para ação americana em solo brasileiro — sem necessariamente pedir permissão ao governo localFoto: Imagem gerada por IA/ND MaisO governo Trump acusou o Brasil de falhar no combate ao PCC e CV em documento oficial enviado ao Congresso americano. A designação das facções como terroristas em maio já havia aberto brecha legal para ação americana em solo brasileiro — sem necessariamente pedir permissão ao governo localFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais
Nesta quarta-feira, o governo Donald Trump enviou ao Congresso americano um documento anual obrigatório sobre países considerados grandes rotas de trânsito ou produtores de drogas ilícitas.
“Embora muitos governos no Hemisfério Ocidental estejam tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil tem falhado em enfrentar as organizações terroristas estrangeiras designadas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, que transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína”, declara o documento.Receba no WhatsApp as principais notícias do dia em primeira mão

É a primeira vez que o Brasil aparece com essa linguagem num relatório anual desta natureza. Em 2025, o documento não citava o país. A mudança não é acidental — é parte de uma escalada calculada que vem se desenvolvendo ao longo do ano.

A linha do tempo que o documento não explica sozinho

Para entender o peso do que foi publicado hoje, é preciso recuar alguns meses.

Em maio de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio classificou PCC e Comando Vermelho como “Specially Designated Global Terrorists” — terroristas globais especialmente designados. A decisão foi assinada em 28 de maio e publicada no Federal Register no início de junho.
Em julho, os EUA foram além: o governo americano anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma empresa portuguesa por suspeita de integrarem um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.

E antes disso, em março, o governo brasileiro havia rejeitado formalmente o pedido americano de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.

Mario Sarrubo, secretário nacional de segurança pública do Brasil, disse à Reuters que o pedido foi feito durante uma reunião entre David Gamble, que lidera a estratégia de sanções do Departamento de Estado, seis outros funcionários do governo Trump e oito autoridades brasileiras em Brasília.O Brasil disse não. Os EUA classificaram mesmo assim — e agora, com o documento desta quarta-feira, colocam o governo brasileiro nominalmente na posição de quem “falhou” perante o Congresso americano.

O que a designação terrorista realmente abre

Aqui está o elemento que mais preocupa juristas e autoridades brasileiras — e que a maioria das coberturas está deixando de lado.

Com a mudança na classificação das organizações criminosas em atuação no Brasil, o governo americano passou a poder adotar medidas financeiras e operacionais contra os grupos, restringir a migração de integrantes e aqueles considerados associados, além de ampliar o uso da inteligência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos para o possível combate às facções.

Em tese, abriu-se brecha para que agentes dos EUA, sejam membros das Forças Armadas ou de órgãos de inteligência como a CIA, pudessem atuar diretamente.

Essa última frase merece atenção específica. “Atuar diretamente” — mesmo que “em tese” — sobre território brasileiro é uma afirmação de capacidade que, combinada com a acusação formal de “falha” do governo brasileiro, cria uma estrutura retórica e legal para intervenção que não existia antes.As autoridades brasileiras foram contra a designação e reagiram ao anúncio da medida, sob o argumento de risco à segurança nacional.

O argumento brasileiro é preciso: quando uma potência estrangeira classifica organizações ativas em seu território como terroristas e abre brecha para “medidas operacionais”, está afirmando o direito de agir nesse território independentemente da vontade do governo local.

A Doutrina Monroe aplicada ao crime organizado

Escrevemos aqui em agosto sobre o vídeo do Departamento de Estado americano declarando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado.” Escrevemos sobre o plano de Rubio para as eleições brasileiras de outubro. Escrevemos sobre a Doutrina Monroe como framework explícito da política de Trump para a América Latina.

O documento desta quarta-feira é mais um capítulo do mesmo livro. A acusação de que o Brasil “falhou” contra o PCC e o CV contrasta deliberadamente o país com outros governos hemisféricos que estão “tomando medidas corajosas”.

A menção ao Brasil representa uma mudança em relação à determinação presidencial publicada um ano antes. No documento de 2025, o país não era citado. A Casa Branca concentrava suas críticas a países como México, China, Colômbia e Venezuela.

A adição do Brasil à lista de repreendidos — sem colocá-lo formalmente na lista de países “que falharam demonstravelmente”, mas com linguagem que equivale a isso — é uma posição intermediária deliberada. Suficientemente grave para criar pressão política e narrativa. Insuficientemente grave para acionar mecanismos formais que exigiriam respostas mais complexas.

É pressão calibrada. E a calibragem não é nova — é a mesma que vimos nas tarifas, na Doutrina Monroe e no visto da embaixadora.

O que o PCC e o CV de fato representam internacionalmente

A acusação americana tem uma base factual que não pode ser ignorada por nenhuma análise honesta.

O PCC é hoje uma das organizações criminosas mais globalizadas do mundo. Com origem nos presídios paulistas nos anos 1990, expandiu-se para mais de 15 países — incluindo Paraguai, Bolívia, Portugal, Espanha e países africanos.

Controla rotas de tráfico de cocaína que conectam produtores andinos a mercados europeus. Tem estrutura financeira sofisticada com operações de lavagem em múltiplas jurisdições.O Comando Vermelho, com base no Rio de Janeiro, tem alcance internacional menor mas igualmente preocupante — com conexões ao tráfico atlântico e presença em Portugal e em países africanos lusófonos.

A afirmação de que essas organizações “transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína” tem suporte em dados de apreensões europeias — os maiores portos europeus de entrada de cocaína sul-americana (Rotterdam, Antuérpia, Lisboa) documentam volumes crescentes com origem em portos brasileiros.

O problema não é a afirmação factual. É o que os EUA fazem com ela — e quais instrumentos legais e políticos ela justifica.

O que o Brasil tem a responder

O governo brasileiro enfrenta um dilema preciso. Concordar com a narrativa americana — adotando as designações terroristas que Washington quer — representa uma concessão de soberania e cria precedentes sobre quem define o que é terrorismo em território brasileiro.

Discordar e resistir — como fez em março — resulta em documentos públicos como o desta quarta-feira, com acusações formais de “falha” enviadas ao Congresso americano, com impacto sobre a percepção internacional do país e sobre as negociações em curso sobre tarifas.

Não há resposta fácil. O crime organizado é um problema real que o Brasil não resolveu. E os EUA estão usando esse problema real como instrumento de pressão política num momento eleitoralmente sensível.As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: o Brasil tem um problema sério com o PCC e o CV — e os EUA estão explorando esse problema para fins que vão além do combate ao crime.

Em 18 dias, o Brasil vota. O documento de hoje será parte do debate — seja pelo governo atual respondendo às acusações, seja pela oposição usando-as como argumento.

A Doutrina Monroe de 2026 não se limita a tarifas e reconhecimento diplomático. Chegou agora ao crime organizado — com o vocabulário do terrorismo e as ferramentas legais que esse vocabulário desbloqueia.




17/09/2026 – Rádio Cidade FM

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