Às vésperas da apresentação da plataforma no Congresso Nacional, o idealizador Cláudio Queiroz explica como o Gasto Brasil pretende aproximar o cidadão das contas públicas e fortalecer a cobrança por eficiência na gestão
Criada em 2025 pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) em parceria com a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a plataforma Gasto Brasil vai ganhar mais espaço e visibilidade no próximo dia 11 de agosto.O painel, que monitora as despesas públicas federais, estaduais e municipais será apresentado no Congresso Nacional, com o objetivo de consolidar o papel da ferramenta na transparência e qualidade do destino do dinheiro do cidadão brasileiro.Idealizador do projeto, Cláudio Queiroz explica que a finalidade do Gasto Brasil, que permite consultas rápidas, visualização de dados e comparações entre diferentes regiões do país, é oferecer uma visão mais simples sobre a gestão dos recursos públicos.“Ajuda a entender melhor onde e o quanto os governos estão gastando, e se essas despesas fazem sentido do ponto de vista da eficiência e do retorno à sociedade”, afirma. Confira a seguir a íntegra da entrevista:Diário do Comércio – Como nasce a ideia para se implantar o Gasto Brasil? Porquê a CACB e a ACSP decidiram criar essa plataforma?Cláudio Queiroz – O Gasto Brasil surge da necessidade de fechar a equação da transparência fiscal no Brasil. Enquanto a sociedade já acompanhava o volume arrecadado pelo Estado (pelo Impostômetro), faltava um instrumento de visualização que escancarasse o lado da despesa pública (União, Estados e Municípios). A motivação central fundamenta-se em três pilares técnicos. O primeiro é rigidez orçamentária e descontrole estrutural, que gera um crescimento inercial dos gastos que sufoca os investimentos públicos produtivos.O outro é a assimetria de eficiência, que demonstra que o problema fiscal brasileiro não decorre da falta de receitas, mas da baixa qualidade do gasto público. O terceiro é a necessidade de criar uma cultura da responsabilidade fiscal, capacitando a sociedade e os tomadores de decisão com dados consolidados para exigir reformas estruturais. Qual a relação com o Impostômetro, implantado em 2005?Cláudio Queiroz – O Impostômetro, criado pela ACSP em 2005, tornou-se o principal indicador pedagógico da carga tributária brasileira ao mensurar o montante total pago pelos contribuintes em tributos federais, estaduais e municipais.A relação entre o Impostômetro e o Gasto Brasil é de complementaridade e contraposição fiscal. O primeiro afere a entrada, que é a receita público-tributária, enquanto o outro monitora a saída, a despesa primária consolidada. Ao colocar as duas métricas, lado a lado, evidencia-se a assimetria fiscal do país: a velocidade de expansão das despesas frequentemente supera a taxa de arrecadação, expondo a tendência do governo em focar na elevação contínua da receita por meio do aumento da carga tributária ou ajustes arrecadatórios, em vez de aplicar o princípio técnico do custo de oportunidade e da eficiência alocativa na gestão de despesas públicas. Qual a novidade trazida pelo Gasto Brasil diante das várias ferramentas governamentais com informações sobre as despesas públicas?Cláudio Queiroz – No Brasil, temos várias metodologias para calcular as despesas públicas, algumas usadas pelo Banco Central, FMI (Fundo Monetário Internacional) e Tesouro Nacional. Há uma diversidade de números que, a meu ver, confunde quem precisa dessas informações.A plataforma Gasto Brasil veio para reduzir esse problema e tem na sua raiz a informação simples e fácil de ser localizada. A ferramenta unifica dados oficiais, com clareza, para que qualquer cidadão possa visualizar como estão as despesas dos governos federal, estaduais e municipais. A ideia do Gasto Brasil é que tenhamos cidadãos cobradores do destino do seu dinheiro. O Gasto Brasil funciona como uma bússola para orientar decisões?Cláudio Queiroz – Isso mesmo. De forma acessível e integrada. E, com isso, facilitar a análise de dados e a tomada de decisões baseada em dados. A plataforma contribui para o fortalecimento da transparência e da gestão. Organiza dados oficiais sobre a execução das despesas públicas em linguagem visual e acessível, sem estabelecer juízo de valor sobre programas, políticas públicas ou escolhas orçamentárias.A proposta é ampliar a transparência, fortalecer o controle social e oferecer mais informações. A transparência é um dos principais instrumentos para aprimorar a gestão pública e fortalecer a participação da sociedade. Não basta arrecadar mais; é preciso gastar melhor, com eficiência e responsabilidade. O objetivo do Gasto Brasil é oferecer uma visão mais completa sobre a gestão dos recursos públicos. É uma plataforma que ajuda a entender melhor onde e o quanto os governos estão gastando, e se essas despesas fazem sentido do ponto de vista da eficiência e do retorno à sociedade. Como está a evolução das despesas públicas quando se compara 2026 com 2025?Cláudio Queiroz – A despesa pública está mais veloz em 2026. O desembolso de recursos públicos chegou a R$ 3 trilhões 20 dias antes do que ocorreu em 2025, mostrando que, a cada dia, o governo está gastando recursos públicos de forma mais acelerada.A antecipação está relacionada principalmente ao aumento das despesas primárias do governo. No primeiro trimestre deste ano, esses gastos cresceram cerca de 16% na comparação com o mesmo período do ano passado. Embora o governo aponte tendência de queda da inflação, os gastos públicos continuam crescendo em ritmo elevado.Então, precisamos acompanhar esses gastos e verificar o quanto ele está sendo eficiente. E a plataforma não veio para dizer, por exemplo, se precisa ter ou não o Bolsa Família, se tem que melhorar ou não o benefício, mas estamos tratando de eficiência de governo, de uma instituição que precisa cada vez mais prover resultados para a sua sociedade. Esse é o objetivo da ferramenta. A plataforma tem como objetivo democratizar o acesso e dar mais transparência aos gastos públicos. Qual o impacto disso no cotidiano do cidadão?O Gasto Brasil não tem caráter fiscalizador. Ela oferece informações para que a sociedade possa acompanhar a eficiência da gestão pública e cobrar resultados. A plataforma foi desenvolvida para aproximar o cidadão das informações fiscais e incentivar o acompanhamento permanente das contas públicas. Ela tem sinalizado que o país efetua gastos como uma má gestão. Então as despesas dos governos estão em linhas divergentes aos benefícios diretos aos cidadãos. Por isso, o governo precisa olhar para algumas ações específicas e observar o que está acontecendo. Falta gestão. Como está o processo de aprimoramento da plataforma?Cláudio Queiroz – Atualmente, o Gasto Brasil passa por atualizações para ampliar sua capacidade de consulta e análise. Entre os recursos que estarão disponíveis consta a área de mapas, que reúne informações municipais, como população, gasto total estimado no ano e desembolso por habitante. Também vai permitir consultar recortes por esfera de governo e por grupos de despesa, contribuindo para uma leitura mais clara da composição do gasto público. Além dos mapas interativos, o Gasto Brasil disponibilizará séries históricas, gráficos e consultas por esfera de governo, permitindo acompanhar a evolução das despesas desde 2018 e comparar o desempenho de estados e municípios em diferentes indicadores.E ainda reunirá informações sobre investimentos, despesas com pessoal e gasto público por habitante, oferecendo uma visão mais detalhada da execução das despesas públicas. A plataforma deverá incorporar novos indicadores nos próximos meses, incluindo um índice para avaliar a qualidade das informações prestadas por estados e municípios aos órgãos de controle. A proposta é verificar aspectos como regularidade, consistência e pontualidade na prestação de dados fiscais, permitindo uma análise mais precisa da gestão pública em cada ente federativo. A CACB e a CNA irão realizar evento no Congresso Nacional para explicar o funcionamento da plataforma Gasto Brasil. Qual a relevância dessa iniciativa?Cláudio Queiroz – É muito importante levar o Gasto Brasil até o Congresso Nacional, uma ação da CACB realizada em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). No caso específico do legislativo, a plataforma oferece um mecanismo adicional de apoio à fiscalização, sem substituir órgãos de controle. Vamos fazer um lançamento no dia 11 de agosto, na Câmara dos Deputados.E, por uma semana, as pessoas que passarão por lá poderão visualizar e utilizar essa ferramenta como mais um tipo de informação. O acesso à plataforma é gratuito e pode ser feito por qualquer cidadão.
31/08/2026 – Rádio Cidade FM