O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas, escancarou uma crise que a maioria do varejo enfrenta silenciosamente: quando o negócio não tem o tamanho da Casas Bahia, ele não pede recuperação judicial. Ele fecha ou quebra.O que você precisa saber
O número de empresas do varejo em processo de recuperação judicial vem crescendo. De junho de 2025 a junho de 2026, o total de companhias nessa situação saltou de 819 para 986 empresas, alta de 20,4% em 12 meses, próximo dos 21,2% registrados no total de recuperações judiciais do país, informa o Monitor RGF-BIZDOC, plataforma que rastreia pedidos de recuperação judicial, falências e insolvência empresa…Material de construção tem 100 falências contra 70 recuperações
Óptica tem 42 falências contra 10 recuperações
Móveis e iluminação somam 38 falências contra 23 recuperações
Calçados são 25 falências e 11 recuperações
Nesses ramos, a empresa prefere fechar a entrar na Justiça quando a renda cai.Em ramos onde é fácil abrir um negócio mas o comerciante tem pouco a oferecer como garantia a um banco, fechar as portas é mais barato do que tentar se reestruturar. “A recuperação judicial, no varejo, é instrumento reservado a quem tem escala e ativo a proteger”, diz Cláudio Damasceno, coordenador do Monitor RGF-BIZDOC.A exceção são os postos de combustível. Eles concentram 18,5% de todas…‘Shoppings online’ e juros altos
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia e da Marabraz são exemplo da crise nas redes varejistas. Com R$ 17,3 bilhões em dívidas, as Casas Bahia buscaram a Justiça após anos fechando lojas e cortando pessoal. O movimento das duas companhias escancara o “nível de pressão financeira enfrentado por parte das empresas brasileiras”, atingindo especialmente o setor de bens duráveis, avalia Edson Mendes, da Private Investimentos.O encarecimento do crédito e o orçamento apertado das famílias pioram o quadro para o varejo. A alta taxa de juros —atualmente em 14% ao ano— eleva o custo para as empresas renovarem suas dívidas ao mesmo tempo em que tir…A competição seria desigual. Os marketplaces não têm loja própria, não compram estoque com antecedência e não financiam o cliente, diz Damasceno. Por isso o comércio 100% pela internet não registra nenhum pedido de recuperação judicial no levantamento. “A Casas Bahia ficou na pior das posições: obrigada a competir em preço com o digital, mas mantendo o custo do físico”, diz o pesquisador. “Os marketplaces não causaram sozinhos a recuperação judicial, mas retiraram a margem que pagava a estrutura.”…O alto endividamento da empresa dificultou a tomada de crédito. A Casas Bahia recorreu à Justiça porque os bancos cortaram o financiamento e o caixa se esgotou. A companhia teve dificuldade para renovar empréstimos no Brasil e tentou, sem sucesso, buscar dinheiro nos Estados Unidos. Esgotadas as alternativas para pagar as contas imediatas, a recuperação judicial virou o último recurso para manter o negócio de pé…A leitura fácil seria ‘o e-commerce matou a loja de rua’. Os dados não sustentam isso. Nenhuma varejista foi à Justiça porque perdeu participação de mercado. Foram porque não conseguiram rolar a dívida.
Júlio Moretti, CEO da Neot…
18/08/2026 – Rádio Cidade FM