Visto embaixadora Brasil EUA revogado: a crise que começou quando Washington anunciou seu embaixador sem consultar Brasília — e chegou ontem ao ponto mais grave em décadasFoto: Imagem gerada por IA/ND MaisA cadeia de erros que chegou a esse ponto
Os EUA quebraram o protocolo primeiro
Em junho de 2026, a Casa Branca divulgou publicamente o nome de Daniel Perez — deputado estadual pela Flórida e próximo aliado de Marco Rubio — como o escolhido para ser o novo embaixador americano no Brasil.
O problema: fizeram isso antes de consultar o Brasil. Só um mês depois de tornar pública a indicação é que os EUA formalmente solicitaram ao Brasil a aprovação diplomática.Ao agir dessa forma, romperam com a prática tradicional, segundo a qual o país que envia o embaixador consulta previamente a nação anfitriã e aguarda sua manifestação antes de oficializar a indicação.O gesto provocou incômodo imediato no Palácio do Planalto. O Brasil foi colocado numa posição de ter que aprovar ou rejeitar publicamente um nome que já estava na mídia — não de dar um aval privado e discreto, como o protocolo prevê.
O Brasil negou vistos a funcionários americanos
Em julho, o Ministério das Relações Exteriores negou o pedido de visto a dois funcionários do governo Trump que visitariam o Brasil. Uma reportagem do Washington Post revelou que Riley Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, e o subsecretário-assistente Samuel Samson, tinham planos de preparar um ataque à confiabilidade das urnas e do sistema eleitoral brasileiro.O Departamento de Estado negou que os funcionários pretendiam interferir nas eleições.
O aval que virou arma eleitoral
O impasse sobre o agrément torna-se de difícil resolução no curto prazo.
É uma preocupação legítima, dado o que aconteceu com a candidatura de Flávio Bolsonaro recebendo apoio aberto de Milei e Netanyahu. Mas usar o aval diplomático de um embaixador como moeda de troca eleitoral é uma escalada deliberada — e tem consequências.
O que é um agrément — e por que o Brasil pode dizer não
O agrément é um procedimento básico do direito diplomático internacional. Antes de nomear um embaixador, o país que o envia solicita informalmente a aprovação do país que vai recebê-lo.O país receptor pode negar sem precisar dar explicações — é um exercício legítimo de soberania. Nenhum Estado é obrigado a aceitar o representante de outro.Na prática, a negativa formal de um agrément é rara e considerada um gesto diplomaticamente grave — equivale a dizer ao outro país que seu representante escolhido não é bem-vindo.
Mas pode dizer não por quanto tempo?
O Brasil não negou formalmente o agrément de Perez — apenas não o concedeu. Há uma diferença jurídica importante: a demora não é uma rejeição, é um impasse. E impasses diplomáticos têm um custo crescente, como ontem ficou demonstrado.O governo norte-americano afirmou que a embaixadora poderá permanecer nos EUA, embora sem um visto válido, e que o documento poderá ser restabelecido caso o Brasil conceda o aval diplomático ao novo embaixador.
É uma pressão com prazo: o Brasil pode continuar demorando, mas pagará um preço crescente por cada semana de impasse.Onde isso vai parar — e o que cada lado tem a perder
A lógica de escalada de crises diplomáticas tem uma direção previsível: cada retaliação exige uma contrapartida do outro lado, que por sua vez exige nova resposta.O Itamaraty ainda não se pronunciou oficialmente sobre a revogação do visto de Viotti. As opções na mesa são poucas e nenhuma é boa.
Se o Brasil ceder e conceder o agrément a Perez, envia a mensagem de que pressão econômica e diplomática funciona — o que encoraja novas pressões no futuro.Se o Brasil mantiver o impasse, a situação de Viotti se torna insustentável a médio prazo, e a relação bilateral — já pressionada pelo tarifaço e pela emergência nacional — se deteriora ainda mais, num momento em que o país precisa negociar tarifas, atrair investimentos e fortalecer sua posição no comércio internacional.Os dois países que precisam um do outro — e não querem admitir
Há uma ironia estrutural que define essa crise inteira.
O Brasil e os Estados Unidos são parceiros comerciais profundos, com US$ 100 bilhões em comércio bilateral por ano. Os EUA são o segundo maior destino das exportações brasileiras.O Brasil é um dos maiores mercados para produtos e investimentos americanos na América do Sul.Nenhum dos dois países tem interesse real em romper a relação. Mas ambos estão usando os instrumentos à disposição para demonstrar que não cederão facilmente.
E nesse tipo de jogo, quem paga são as empresas, os agricultores, os investidores e os cidadãos comuns — de ambos os lados — que dependem de uma relação bilateral funcional para seus negócios e suas vidas.Rubio anteriormente chegou a acusar Lula de ter colocado “o ego à frente” de um possível acordo comercial entre os EUA e o Brasil. Talvez o secretário de Estado americano deva olhar para sua própria casa: foi a Casa Branca que anunciou o nome de um embaixador antes de pedir permissão ao Brasil, quebrou o protocolo que existe exatamente para evitar situações como essa, e agora revoga o visto de uma diplomata para pressionar o país a aceitar o que deveria ter sido negociado discretamente desde o início.
Erros diplomáticos raramente têm um único autor. Mas frequentemente têm um primeiro autor. E desta vez, esse primeiro autor ficou em Washington.











